22.10.20

Terra à vista

Não invadir
Nem evadir.
Dispor!
Singrar
O mar
Do amor.
E aportar.

30.12.19

Urgência


Só tenho urgência
De calma; nisto cismo.
Não tenho paciência
Para imediatismo.

4.9.19

Burnout


Cadê o refrão grudado em ti?
Cadê o verso que te animava?
O sorriso que nunca mais vi?
Cadê a alma que te habitava?

26.8.19

Final de agosto


Já é final
De agosto
Outra vez.
Trezentos
E sessenta
E cinco
Dias
Sobrevividos
No peito
E no rosto
Um
De cada
Vez.
O pulso pulsa
A vida vibra
Transborda
Mais um mês.
De amarelo
Setembro
Bate à porta
Outra vez.

21.8.19

Prescrição contra a dor


Auscultando meu peito
Disse-me o doutor:
- Este ritmo é suspeito
  Por acaso sentes dor?

Plugou-me a monitores
Multiparamétricos
E chamou outros doutores
Com semblantes tétricos

Nada em mim estava ileso
As redondilhas, de doer!
- Carregas muito peso?
Doutor Quintana quis saber

O duro diagnóstico dado
Revelou várias aliterações
Vinte versos quebrados
E um desalinho de emoções

Tinha todos os tercetos
Completamente comprometidos
- Seja ao bloco removido!
Ordenou o doutor Azevedo

- Tratamento intensivo!
Decidiu o doutor Drummond
- E algum antidepressivo...
Doutor Leminski acrescentou.

Nos garranchos do doutor
A receita contra a dor:
Uma dose de poesia
Duas vezes ao dia.

26.7.19

Amor de vó


Amor de vó
É um negócio transcendente
Ungido de nescau gelado
E coroado com waffle quente

27.6.19

Não é euforia


Felicidade não é euforia
Pois esta é fugaz... varia!
Felicidade é permanência
De paz no coração
Certeza de sua existência
Até quando parece que não.

26.6.19

Amor paciente


Ante todo mal,
o amor é paciente.
Porém,
frequentemente,
terminal.

18.6.19

Letras apenas

Sois dores e pensamentos
De (in)certos momentos
Meríssimos arrazoados!
Pretensiosos poemas
A duras penas
Mal traçados.
Um amontoado
De letras.
Sois, pois, letras.
E letras apenas.

6.4.19

Teu silêncio tão meu


Escuta este silêncio
Tão nosso, privativo
Sintomático silêncio
Respirando no ouvido

Nosso não dito é mar
De afável correnteza
Navegamos na certeza
De sermos nós um par

Ruge ao pé do ouvido
E flui, sendo fruído
Um oceano particular

De todas as palavras
Que o discurso lavra
O silêncio ecoa amar